I. Introdução
O estudante do Novo Testamento se depara, logo de início, com um grande problema: a escolha de uma metodologia para direcionar sua pesquisa. Existem diversas metodologias para o estudo do N.T. Elas divergem entre si em pontos essenciais, fazendo com que os resultados da pesquisa, necessariamente, divirjam de acordo com a metodologia adotada.
O objetivo dessa pesquisa é analisar a ressurreição de Cristo sob as quatro correntes metodológicas mais importantes da abordagem da Teologia do Novo Testamento, as quais são: abordagem temática, abordagem existencialista, abordagem histórica e abordagem história da salvação.
A escolha do tema não seguiu nenhum critério objetivo. No entanto, constata-se sua importância a partir do momento em que todos os autores estudados, em suas respectivas correntes metodológicas, consideram-no central para teologia do N.T. Logo, o modo como a ressurreição de Cristo é interpretada pelo estudioso revela suas bases metodológicas e, conseqüentemente, suas pressuposições.
A metodologia adotada neste trabalho é simples. Em um primeiro momento será apresentado um panorama resumido de cada abordagem, com suas bases e ênfases. Isso será feito mediante a análise de um estudioso selecionado que represente cada abordagem, com sua T.N.T. Em seguida, será analisada a interpretação que cada um desses autores confere à ressurreição de Cristo. Então, serão constatadas as bases metodológicas de cada abordagem e como elas influenciam na interpretação da doutrina. Por fim, será apresentada uma proposta metodológica alternativa às quatro apresentadas.
II - Panorama das Principais Propostas Metodológicas para a Teologia do Novo Testamento (T.N.T.)
2.1 Abordagem Temática
2.1.1 Alan Richardson
Para Richardson, a única maneira de saber se a “igreja apostólica possuía uma teologia comum e que ela pode ser reconstruída a partir da literatura do Novo Testamento” é “moldar uma hipótese por meio da referência ao texto daqueles documentos à luz de todo o conhecimento crítico e histórico disponível”. Em outras palavras, ele busca responder à pergunta: “há uma teologia unificada no N.T.?” A única maneira de se descobrir seria formulando uma hipótese para, em seguida, verificá-la mediante o estudo crítico do N.T. - o que faz esta abordagem se utilizar de métodos históricos, arqueológicos, filológicos, literários, etc.
Richardson defende a hipótese de “que o próprio Jesus é o autor da brilhante reinterpretação do esquema salvífico do Antigo Testamento”. A teologia da igreja apostólica teria surgido desta reinterpretação.
A “fé” é a base e a pressuposição de sua metodologia para a T.N.T.: “a teologia do Novo Testamento, quando escrita por um cristão, começará, necessariamente, com a fé apostólica, mas, quando escrita por humanistas liberais, principiará (e não somente concluirá) com a convicção de que as conquistas de Jesus e sua Igreja devem ser explicadas em termos do que podem realizar homens notáveis e de grande bondade”. Ele mesmo define seu princípio de interpretação como “fé cristã histórica”. Porém, ele não explica o porquê de sua afirmação. Por que não iniciar a T.N.T. com outro tema? Ele não responde. A questão metodológica levantada por Richardson é se uma T.N.T. só pode ser escrita por um crente. A resposta dele, juntamente com Schlatter, seria “sim!”. Porém, Wrede e Stendahl diriam “não!”.
Sustentando seu pressuposto de que somente mediante o discernimento da fé cristã é possível chegar à compreensão das origens do cristianismo, ele quer dizer que a metodologia da T.N.T. não pode se limitar aos métodos críticos da ciência puramente descritiva. Por conta disso, Hasel sustenta a impossibilidade de enquadrar Richardson dentro do método descritivo, sugerindo para ele o “método confessional-descritivo”.
O problema crítico aqui se refere à questão de se deve-se escrever uma T.N.T. a partir da estrutura da fé cristã, da fé do N.T., ou da minha fé? A “fé cristã” de que fala Richardson deve ser entendida de que confissão? A anglicana? A luterana? Ele não deixa claro. Uma teologia confessional do N.T. perde de vista o elemento de objetividade pretendido pelo método descritivo.
A estrutura de sua T.N.T. também apresenta inconsistências. Ela demonstra que um dos grandes problemas do “método confessional-descritivo” de Richardson é sua arbitrariedade. Uma T.N.T. elaborada a partir de uma estrutura temática deve permitir que o próprio N.T. forneça os temas, motivos e relacionamentos entre eles. Não há nenhuma explicação ou ligação lógica extraída do próprio texto do N.T. que justifique a estrutura temática da obra de Richardson. Ele omite vários temas importantes. Sua prática equivale à eisegese às expensas da exegese.
2.2 Abordagem Existencialista
2.2.1 Rudolf Bultmann
A abordagem teológica de Bultmann concentra-se na apropriação do existencialismo Heideggeliano para a realização da tarefa teológica. Sua principal preocupação era fazer a fé cristã bíblica compreensível à mentalidade moderna. Para tanto, empreendeu uma interpretação existencialista do Novo Testamento, cuja mensagem é dirigida ao indivíduo e exige uma resposta de fé individual. Para ele, portanto, a tarefa da teologia é “explicar a existência humana em relação a Deus através do ouvir a Palavra de Deus, que se dirige ao indivíduo por meio do Novo Testamento”.
Relacionado à filosofia existencialista está seu conceito de demitização (ou desmitologização). Mediante a aplicação do método histórico-crítico aos textos do N.T., vários estudiosos, incluindo Bultmann, chegaram à conclusão de que sua mensagem fora influenciada pela mitologia e religiões de mistério. Porém, enquanto a teologia liberal propunha a eliminação de toda a mitologia neotestamentária, Bultmann rejeitava esse procedimento, alegando que isso eliminaria também o kerygma. Para ele, os mitos deveriam ser reinterpretados e compreendidos corretamente com o propósito de verificar seu verdadeiro sentido literário, i.é., seu significado existencial fundamental. A esse processo ele chamou de “demitização”.
Ele usava “mito” para referir-se “a qualquer expressão que possa comprovadamente ser excluída pelo enfoque da ciência natural característica da mentalidade moderna”. Por exemplo, o homem moderno não é mais tão intelectualmente “infantil” ao ponto de acreditar na divisão física entre céu, acima da terra, e inferno abaixo dela; nem tão pouco no mito da vinda de um deus redentor. Para Bultmann, a linguagem mitológica não somente é inconcebível à mentalidade do homem moderno como também distorce a própria mensagem do evangelho, impedindo um encontro verdadeiro com o kerygma. A demitização como método hemenêutico é justificado, portanto, por facilitar a tarefa do Evangelho de falar às pessoas nos nossos dias.
Muito importante para a compreensão de sua T.N.T. é o seu conceito de “reconstrução” e “interpretação”. Para ele, a T.N.T. não deve deter-se apenas à descrição, mas envolver-se na tarefa de reconstruir a mensagem neotestamentária e interpretá-la para o homem moderno, transpondo os vários abismos - temporais, lingüísticos, culturais, etc. -, que separam este homem daquele dos tempos bíblicos, que para ele significa uma autocompreensão resultante da resposta individual à Palavra de Deus. Ele, então, busca reconstruir um retrato do cristianismo primitivo a serviço da interpretação. Por “interpretação” ele quer dizer explicar os pensamentos teológicos do N.T. em sua ligação como o “ato da vida”, i.é., como uma explicação da auto-compreensão cristã.
Quanto à estrutura da T.N.T. de Bultmann, ele segue basicamente a estrutura de Wrede e Bousset, e coloca as teologias de Paulo e João em um nível mais elevado, como parte do kerygma primitivo, enquanto a pregação de Jesus não faria parte da teologia do N.T., mas constituiria, tão somente, um pressuposto dela. Desta maneira ele estabelece um abismo ideológico entre Jesus e os dois apóstolos. O tratamento que dispensa às teologias de Paulo e João o leva a ser acusado de criar “um cânon dentro do cânon”. É curioso o uso que ele faz de duas metodologias distintas na análise do N.T. Ele lança mão do “método descritivo” para tratar dos tópicos da primeira parte de sua obra, enquanto emprega uma “interpretação antropológica” para a análise das partes dois e três, onde são tratadas as teologias de Paulo e João. Semelhante à “abordagem temática”, que impõe arbitrariamente uma estrutura temática ao N.T., a abordagem existencialista de Bultmann incorre no erro de impor, subjetivamente, uma filosofia estranha à teologia do N.T. Ele afirma que “a teologia paulina é simultaneamente antropológica”, e com isso transforma Paulo em um filósofo existencialista e sua teologia em antropologia, ao invés de tratá-lo como teólogo e apóstolo de Jesus Cristo.
Um outro problema surge devido à simples compreensão de que toda filosofia erguida a serviço da teologia levanta a questão da escolha do fundamento filosófico feita pelo teólogo. No caso de Bultmann, o que o levou a imaginar que o existencialismo Heideggeliano é o método para se interpretar o N.T.? Tal escolha é subjetiva e arbitrária. Além do mais, muitos textos não tratam de questões existenciais, o que faz da exegese de Bultmann, no mínimo, unilateral.
2.3 Abordagem Histórica
2.3.1 Werner G. Kümmel
Este apresenta um objetivo para a teologia no N.T. diametralmente oposto ao de Bultmann e Conzelmann, um discípulo de Bultmann. Para estes, o Jesus histórico não tem lugar na teologia do N.T. Nas famosas palavras de Bultmann: “a pregação de Jesus está entre os pressupostos da teologia do N.T. e não constitui uma parte dela”. Conzelmann, concordando com seu mestre, afirma que “o problema base da teologia do Novo Testamento não é como o proclamador, Jesus de Nazaré, tornou-se o Messias anunciado, o Filho de Deus, o Senhor”.
Kümmel, por outro lado, procura mostrar historicamente como o Proclamador se tornou o Anunciado. Seu objetivo é “apresentar o conteúdo central da pregação de Jesus, da teologia de Paulo no contexto da comunidade primitiva, e da mensagem de Cristo no Evangelho de João. Baseados nessa apresentação pela unidade existente entre as diversas formas de pregação”. Sua abordagem é chamada de “histórica-moderna” da pesquisa.
Ao contrário de Bultmann, Kümmel não vê nenhum abismo ideológico entre Paulo e Jesus. Ele argumenta que Paulo é uma testemunha e intérprete fiel de Cristo. As diferenças entre eles são mínimas e não modificam em nada a essência da mensagem que proclamam. Ele afirma que “não existe, apesar das grandes diferenças formais, diferença fundamental de conteúdo entre a reivindicação pessoal de Jesus e a proclamação paulina de Cristo”. E mais adiante ele conclui que “Jesus e Paulo são testemunhas da mesma verdade histórica, mas Paulo aponta apenas para a salvação trazida por Jesus no passado e esperada dele no futuro”.
2.4 Abordagem da História da Salvação
2.4.1 George E. Ladd
Ele foi um dos dois eruditos norte-americanos a escrever uma teologia do Novo Testamento completa após sete décadas de aridez norte-americana sobre o assunto. Sua erudição é reconhecida entre acadêmicos de diversas linhas de pensamento.
Ladd sustenta que a historiografia secularizada é incapaz de explicar a revelação bíblica devido a seus pressupostos anti-sobrenaturalistas que não vêem lugar para homens divinos na história. Ele afirma:
O problema reside no fato de que as pressuposições sobre a natureza da história têm continuamente sido inseridas na reconstrução da mensagem bíblica [...] Entretanto, uma vez que a teologia bíblica preocupa-se com a auto-revelação de Deus e com a redenção dos homens, a própria idéia de revelação e redenção envolve certas pressuposições que estão implícitas por toda parte e com freqüência explícitas na Bíblia. Essas pressuposições são: Deus, o homem e o pecado.
Portanto, o método histórico-crítico, com suas bases na crítica, analogia e correlação, fundamentada na pressuposição iluminista de uma história governada por leis naturais de causa e efeito em um universo fechado, é inadequado para a compreensão da teologia do N.T.
Ele faz uma distinção entre História e História da Salvação, onde a história “deve ser compreendida como a reconstrução moderna que o historiador faz dos eventos do passado pelo uso crítico dos documentos antigos”, enquanto a história da salvação apresenta a história pelo prisma de que “Deus tem estado ativo redentoramente em um fluxo da história de um modo particular em que não esteve na história geral; ela [a Bíblia] demonstra estar cônscia de que em certos pontos Deus atuou na história de modo que transcende a experiência histórica ordinária”. O melhor ilustração deste fato seria a ressurreição de Cristo, pois “do ponto de vista da crítica histórica científica, a ressurreição não pode ser ‘histórica’, e, consequentemente, não tem analogia. Deus, e unicamente Deus, é a causa da ressurreição”.
Para Ladd, toda a questão é teológica, i.é.,
Eventos revelatórios não são produzidos pela história, mas que o Senhor da história, que está acima da história, age dentro da história para a redenção das criaturas históricas. A redenção da história deve vir de fora da história – do próprio Deus. Isto não significa que devemos abandonar o método histórico no estudo da Bíblia. Significa que em certos pontos o caráter dos atos de Deus é al que transcende o método histórico, e que o historiador qua historiador não pode dizer nada sobre os mesmos.
Esta ação auto-revelatória de Deus em eventos singulares da história fazem parta da história da salvação.
O objetivo da T.N.T., portanto, “consiste primariamente da recitação do que Deus realizou em Jesus de Nazaré”, e é uma disciplina primariamente descritiva.
III. A “Ressurreição” de Cristo Analisada sob as Perspectivas das Quatro Principais Abordagens da T.N.T.
3.1 Abordagem Temática – Alan Richardson
Richardson aborda o tema da ressurreição de Cristo em sua T.N.T., no capítulo intitulado “ressurreição, ascensão e vitória de Cristo”. Para ele, a celebração dominical da igreja em comemoração à morte de Cristo só faria sentido se eles estivessem certos da Sua ressurreição, sendo esta a maior evidência da certeza de que conheciam a ressurreição. Ele afirma:
A reunião dos discípulos que ‘deixando-o, todos fugiram’ (Mc 14.50) é suficiente prova de que algo milagroso ocorrera; e a própria existência da Igreja, se levarmos em conta as circunstâncias em que a missão de Jesus parecia terminar em falha e fracasso total, já seria bastante para nos convencer de que a explicação dos apóstolos é, de fato, a única que merece aceitação racional.
Ele sustenta a literalidade da mensagem bíblica concernente à ressurreição de Cristo, segundo o testemunho apostólico, como a única alternativa de interpretação coerente com o escopo geral da T.N.T., sendo um ponto base de sua hipótese norteadora da teologia do N.T., apresentada logo no prefácio de sua obra:
O próprio Jesus é o autor da brilhante reinterpretação do esquema salvífico do Antigo Testamento [...] que se encontra no Novo Testamento, e que os eventos da vida, ‘sinais’, paixão e ressurreição de Cristo, segundo o testemunho apostólico, explicam os dados do Novo Testamento melhor do qualquer outra hipótese moderna.
Ele prossegue apreciando a “evidência documentária da ressurreição” de Cristo “ao terceiro dia, segundo as Escrituras” (I Cor. 15.4; cf. Luc. 24.46; 24.25s). O problema é que não há nenhuma declaração profética explícita no A.T. sobre a ressurreição de Cristo ao terceiro dia. Apesar das várias profecias quanto à ressurreição de Cristo no A.T., nenhuma menciona o dado de que seria ao terceiro dia. Entretanto, é o que Lucas e Paulo entendem estar nas Escrituras. Richardson propõe que os autores bíblicos, talvez, estivessem pensando em três passagens veterotestamentárias, a saber: Osé. 6.2, Jon. 1.17 e Êxo. 19.10s. Neste caso, Lucas e Paulo não estariam recorrendo a uma citação direta, mas a um princípio extraído mediante uma síntese do ensinamento de várias passagens das Escrituras do A.T., quanto ao assunto, especialmente as três supra.
Os relatos sobre as aparições de Cristo após a sua ressurreição fazem parte da tradição apostólica mais antiga, remontando ao tempo em que ainda não havia Evangelho escrito. Faziam parte de uma espécie de catecismo ensinado aos catecúmenos. Era parte integrante do kerygma da Igreja Primitiva (cf. At. 2.14-36; 3.12-26; 4.8-12; 5.29-32; 10.34-43). Richardson menciona duas parádosis que foram e escritos e preservadas nos textos do N.T. A primeira em 1 Coríntios 15.19, onde Paulo relembra aos coríntios as palavras de sua pregação. O outro seria o controverso texto de Marcos 16.9-20, conhecido como a “longa conclusão de Marcos” – que muitos estudiosos defendem a hipótese de que seja um texto acrescentado à versão original de Marcos. Apesar da dificuldade de situar alguns fatos relatados em ambos os textos, não restam dúvidas de que esta era a tradição recebida por Paulo e os evangelistas. Além do mais, em sua época havia muitas pessoas que poderiam contestá-los caso fugissem da tradição comumente aceita. Mais um motivo pelo qual considerá-la legítima.
Richardson destaca três elementos importantes das perícopes relativas à parádosis primitiva da ressurreição de Cristo. Primeiramente, é destacado o elemento paradigmal destas perícopes (aforismos). Como exemplos, ele cita Mat. 28.8-10, 16-20 e Jo. 20.19-21, asseverando que neles:
Estão presentes todos os elementos que, em outros contextos, levariam os críticos da forma a crer que as perícopes eram primitivas [...] Dão testemunho (segundo os mais severos princípios da crítica da forma) da realidade da ressurreição como evento histórico, tanto quanto qualquer outro que tenhamos conhecido por meio dos paradigmas dos Evangelhos sinóticos.
Um segundo elemento nas narrativas da ressurreição é o didático, que visa transmitir uma verdade teológica por meio de histórias. Alguns exemplos de trechos didáticos seriam Luc. 24.13-35 e Jo. 21.1-14, por exemplo. Apesar de serem textos que possuem também o caráter didático, contêm, sobre tudo, a verdade da história.
Um terceiro elemento destacado por Richardson é o do propósito apologético da tradição literária da ressurreição. Como exemplos, ele cita Mat. 27.62-66 (revela a mentira dos judeus), Luc. 24.41-43 (contrário à interpretação docética que entendia a ressurreição de Cristo apenas de maneira em forma “espiritual”), etc.
Ele conclui sua apreciação documentária afirmando que “o Cristo ressurreto dos Evangelhos é uma pessoa essencialmente humana e histórica. As narrativas dos Evangelhos estão livres de imagens e símbolos apocalípticos”.
Richardson discorda da idéia de uma ressurreição puramente espiritual de Cristo, enquanto seu corpo continuava no sepulcro. Ele afirma que essa teoria é moderna e baseia-se na pressuposição científica do século XIX da impossibilidade do milagre. A fé cristã necessariamente envolve a crença no milagre. E “o milagre da ressurreição de Cristo é o centro vivo e o objeto da fé”, cuja importância teológica se mostra por apresentar o significado cósmico do ato de Deus em levantar a Cristo dentre os mortos, i.é., envolve todo um significado escatológico da ressurreição da humanidade juntamente com Cristo, o segundo Adão.
Trazendo à tona sua proposta de que a “fé” é a base e a pressuposição da teologia do N.T ., ele declara que “a ressurreição de Cristo é um evento histórico particular e não uma verdade geral da razão; para se crer nela é preciso que se aceite, primeiro, a palavra das testemunhas e não os argumentos da dialética [...] aceitar a fé cristã é aceitar o testemunho dos apóstolos de que Cristo ressurgiu dentre os mortos”. A ressurreição, como um evento histórico singular, constitui o centro do kerygma apostólico e necessita ser crido para se chegar à compreensão da proclamação do N.T.
Richardson entende que o evento da ressurreição é central para a compreensão da mensagem do N.T.: “toda a proclamação do N.T. depende do fato histórico da ressurreição”. Na verdade, a pregação apostólica primitiva era a declaração de um acontecimento, era a proclamação da cruz e da ressurreição de Cristo. Ele se expressa com vigor sobre a realidade histórica da ressurreição:
A ressurreição não é (como pensaria Bultmann) um artifício mitológico capaz de expressar o significado do evento histórico da crucificação; é histórico em si mesmo, embora não possa ser explicado “cientificamente”, i.é., como um acontecimento da ordem natural. É singular, não se ajustando às classificação científicas; a diferença, então, entre eventos históricos enquadrados na complexidade de seu caráter singular, e os eventos da ordem da natureza, é que os primeiros não se repetem.
Não restam dúvidas de que ele discorda veementemente da hipótese bultmanniana de uma ressurreição mitológica – uma maneira alegórica de expressar uma verdade; no caso, a verdade da ressurreição -, como também discorda das conclusões produzidas pela utilização do método histórico-crítico, cujos princípios basilares, necessariamente, são os da correlação, analogia e crítica, sob a pressuposição de um universo fechado regido por leis naturais de causa e efeito. Richardson enquadra o evento da ressurreição na categoria de eventos históricos singulares, que, por definição, não se repetem. Ou seja, tais eventos históricos não possuem nem analogia e nem correlação e, consequentemente, não podem ser analisados criticamente mediante os métodos científicos.
3.2 Abordagem Existencialista – Rudolf Bultmann
Ao contrário de Richardson que via a ressurreição como fato histórico, Bultmann a enquadra sob a categoria de mito. Enquanto para o “teólogo temático” o fato histórico singular da ressurreição de Cristo é fundamental para a compreensão da mensagem do N.T., para o teólogo existencialista a sua linguagem “mitológica” é tanto inconcebível para a mentalidade “científica” do homem moderno, como prejudicial à própria mensagem do N.T. Devendo, portanto, ser empregada a técnica da demitização para despir o kerygma da roupagem alegórica, utilizada pelos escritores neotestamentários, para se chegar ao cerne de sua mensagem.
Bultmann afirmava, em concordância com Paulo, que o kerygma é a pregação da morte e ressurreição de Cristo como o evento salvífico, as quais formam uma unidade inseparável. Este evento foi a parádosis recebida por Paulo (1 Cor. 15.1-4). Porem, a grande diferença entre ele e Richardson é que, para Bultmann, a cruz e a ressurreição de Cristo são duas maneiras de se referir à mesma verdade. Ele negava o conceito de que a cruz e a ressurreição de Jesus tivessem o poder de expiação e salvação: “O que importa é o sentido da cruz e da ressurreição, o significado contínuo que possuem como Palavra de Deus dirigida aos indivíduos de nossos dias. Ao respondermos ao kerygma, a cruz e a ressurreição tornam-se nossa experiência pessoal”.
Ele falava da cruz como um fato da vida de Jesus, e o interpretava como o julgamento libertador de Deus sobre a humanidade. Porém, quanto à ressurreição ela se recusava a falar em termos objetivos de um fato histórico – não se refere à volta de um homem dos mortos. Para ele, “a fé na ressurreição é, na verdade, a mesma coisa que a fé na eficácia salvadora da cruz”. Ele diz mais:
A verdade da ressurreição de Cristo não pode ser compreendida antes da fé que reconhece o ressurreto como o Senhor. O fato da ressurreição não pode ser comprovado ou evidenciado como fato objetivamente constatável – apesar de 1 Co 15.3-8 –, baseado no qual se pode crer. Mas ela pode ser crida – e somente desta maneira – na medida em que ela ou o ressurreto está presente na palavra anunciada.
O conceito de História utilizado por Bultmann foge ao consenso do século 19. História não é a ciência dos fatos passados exercida de modo impessoal. O conhecimento histórico realmente relevante é um conhecimento existencial. São conhecimentos que deixam de ocorrer no passado e passam a ser acontecimentos presentes, capazes de desvendar a própria existência pessoal. Todo seu bojo conceitual de história, historicidades, existência, temporalidade, etc. é emprestado de Martin Heidegger, de quem já foi dito ser o mentor do existencialismo de Bultmann.
É devido a seu conceito de história que Bultmann se recusa a empreender uma busca pelo Jesus histórico nos moldes de Albert Schweitzer, o qual conclui que tal busca realizada até seus dias havia sido um grande fracasso, pois o Jesus encontrado pelos estudiosos era apenas um pregador apocalíptico que declara um fim do mundo iminente, sem qualquer ligação com a humanidade moderna. Portanto, completamente irrelevante para a humanidade moderna. Bultmann preferiu a posição de Martin Kähler, que defendia a idéia de que a chave do Novo Testamento não dependia da História, desenvolvida mediante o método histórico, mas a mensagem proclamada pela igreja. Bultmann radicaliza a idéia de Kähler, afirmando que o Novo Testamento não se preocupa com o Jesus histórico, mas se concentra no Cristo da fé. Ou seja, é o kerygma, e não o Jesus histórico, que é essencial à fé.
Com tudo isso, é legítimo levantar o questionamento se, para Bultmann, a existência efetiva ou não do Jesus histórico faz alguma diferença fundamental à fé (ou existência autêntica). Se ele não teve coragem de dar um passo à frente no desenvolvimento lógico de seu raciocínio sobre o kerygma, é possível, entretanto, notar um assentimento positivo face a tal questionamento, mediante o tratamento que ele confere ao assunto da ressurreição de Cristo. Pois, segundo ele, o importante é o sentido que ela carrega, e não a historicidade efetiva do evento.
Portanto, Bultmann entende a ressurreição de Cristo não como um acontecimento histórico que ocorre logo após a crucificação, mas com uma dimensão do significado da cruz. O importante é o seu significado enquanto Palavra de Deus dirigida ao indivíduo de nossos dias e exigindo uma resposta, não a sua historicidade.
3.3 Abordagem Histórica – Werner G. Kümmel
Já foi dito acima que o objetivo da teologia do N.T. de Kümmel é mostrar como o Proclamador se tornou o Anunciado. Ele faz esta análise na primeira parte de sua obra, Síntese teológica do Novo Testamento, intitulada “A proclamação de Jesus de acordo com os três primeiros evangelhos”. No capitulo dois, ele se volta para “A fé da comunidade primitiva”, onde o evento da ressurreição é decisivo para moldar o seu modo de vê as coisas. Ele propõe:
Do ponto de vista histórico igualmente é indubitável que pouco depois da morte de Jesus seus antigos discípulos se reuniram novamente e proclamaram a ressurreição do crucificado. Contudo, as opiniões divergem amplamente acerca do que realmente aconteceu entre o sepultamente de Jesus e essa formação de uma comunidade cristã. Para a compreensão da pessoa de Jesus e da comunidade primitiva, porém, é indispensável que obtenhamos uma opinião clara a respeito dessa questão. Por isso devemos perguntar pelo que está testemunhado com segurança, tentando elaborar a partir dessa constatação um parecer inequívoco.
Utilizando-se do método histórico, Kümmel desacredita a ressurreição de Cristo como um fato histórico efetivo. Porém, desde cedo seus discípulos se dedicaram a proclamá-la, e a crença em tal proclamação deu forma à fé da igreja primitiva. Contudo, segundo Kümmel, não se sabe ao certo o que aconteceu logo após a morte de Cristo e como foi elaborada a tradição de sua ressurreição que deu forma à comunidade primitiva. Por este motivo, ele segue sua pesquisa em busca da origem da fé pascal.
Kümmel avalia dois relatos mais antigos a respeito daquilo que aconteceu após o sepultamento de Jesus. O primeiro e mais antigo é o de Paulo em 1 Coríntios 15.3-8 e o segundo é o de Marcos 16.1-8. Ambos refletem duas tradições primitivas sobre a ressurreição de Cristo que foram legadas a Paulo e ao evangelista, e nenhuma delas está baseada em fatos concretos, mas tão somente em “anúncios”, “proclamações”.
No caso de Paulo, a ressurreição deveria ser proclamada com base na visão do ressurreto atestada pelas várias testemunhas que ele enumera, sendo este o único fundamento para a asserção de Paulo e da tradição por ele adotada: “Está claro que Paulo não pressupõe que haja quaisquer outros fatos ou motivos capazes de sustentar a pregação de que Cristo foi ressuscitado”. O caráter desta visão tão pouco é literal. Interpretando as palavras onde o apóstolo fala da esperada ressurreição dos cristãos declarando que “carne e sangue não podem herdar o reino de Deus” (1 Cor. 15.50), ele conclui que “Paulo não pode ter sido da opinião de que o Cristo ressurreto foi visto em seu corpo natural de ‘carne e sangue’. Nem sequer temos a possibilidade de verificar se Paulo estava convicto ou ao de que o sepulcro do Ressurreto esteve vazio”.
No relato de Marcos, a ressurreição também não é baseada no fato do sepulcro vazio. Segundo Kümmel, apesar de o relato mencionar a descoberta do sepulcro vazio pelas mulheres, ele contém uma série de dificuldades históricas, em virtude de tais dificuldades “dificilmente será possível encarar esse relato como narração histórica fidedigna”. Ademais, o relato está mais interessado em narrar a mensagem do anjo, e não como as mulheres encontraram o túmulo vazio. Kümmel conclui: “A narração, portanto, quer fundamentar a fé na ressurreição de Jesus através da afirmação de que um anjo anunciou, no sepulcro vazio, às mulheres a mensagem da ressurreição do sepultado”.
Portanto, havia duas tradições primitivas - ambas baseadas na proclamação - que foram absorvidas e transmitidas por Paulo e Marcos. A primeira tradição baseava-se na proclamação da aparição do ressurreto a várias testemunhas. A segunda baseava-se na proclamação do túmulo vazio. A primeira seria a mais antiga: “a tradição da descoberta do túmulo vazio deslocou a tradição mais antiga do surgimento da fé pascal por intermédio da visão do Ressurreto”. Elas foram combinadas posteriormente. No tempo de Paulo, a tradição do túmulo vazio ainda não era conhecida, mas somente na tradição pré-sinótica, quando suplantou a primeira – de que Pedro e os demais apóstolos começaram a crer na ressurreição após o encontro com o ressurreto.
Portanto, na busca pela origem da fé pascal, Kümmel conclui que a tradição mais antiga é a de que Pedro e os doze (incluindo Paulo), e posteriormente outras pessoas, viram o Jesus crucificado como Ressurreto. Ele conclui dizendo que Paulo e a primeira comunidade “estavam convictos de que Pedro e as demais testemunhas viram Jesus porque Deus havia interferido acolhendo o finado na sua vida, na vida do tempo escatológico divino. Indubitavelmente, a visão do Ressurreto não foi nenhum acontecimento do qual pudesse tomar parte todo aquele que no momento estivesse presente”. A designação desses encontros com Jesus como “visões” não expressa nada sobre fundamental e seu caráter psíquico não interessa à questão. A questão é “se Paulo e a comunidade primitiva tinham ou não razão ao estarem convictos de que os encontros com o Ressurreto não eram ‘estupidez’ (cf. Luc. 24.11) mas que ‘Deus ressuscitou a este no terceiro dia e concedeu que fosse manifesto’ (At. 10.40)”.
Kümmel assume que a pesquisa histórica não pode fornecer a resposta para a questão acima. Porém, o historiador deverá comprovar que algo muito significativo deve ter acontecido para que todas estas testemunhas estivessem convictas de suas visões. Ele, naturalmente, não poderá constatar o que aconteceu. Para as primeiras testemunhas, esse “ver” era um “ver na fé”, um “ver crente”, que despertou nelas a fé na qual foram vencidos seus corações incrédulos.
Mediante sua abordagem histórica, Kümmel conclui que o evento da ressurreição de Cristo é central para a fé da comunidade primitiva. Porém, esse não foi um evento histórico efetivo. Ele conclui que a fé na ressurreição para a os primeiros cristãos significava pelo menos duas coisas: Em primeiro lugar, eles não tinham em mente a idéia de um retorno de Jesus dentre os mortos, pois necessariamente tal fato o conduziria novamente à morte – à semelhança de Lázaro (cf. Jo. 12.10). “De acordo com a fé desses cristãos, no entanto, o Ressurreto foi levado até Deus, e de lá Deus o tornou visível”. Em segundo lugar, sabiam que o Ressurreto, elevado a Deus, já se encontra na glória escatológica, de onde pode enviar o dom do Espírito Santo, também escatológico. Ele resume o conteúdo da fé da comunidade primitiva na ressurreição com a frase de Lucas em At. 2.32s: “este Jesus Deus ressuscitou, do que todos nós somos testemunhas. Exaltado, pois, à destra de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vedes e ouvis”.
Kümmel deixa de esclarecer vários pontos importantes em sua análise da ressurreição de Cristo, além de não explicar satisfatoriamente várias decisões exegéticas e reconstruções da redação da tradição do evangelho, como a exclusão arbitrária de Marcos 16.7.
Ele afirma que o tipo de “visão” que os discípulos tiveram não é importante para o fato da fé na ressurreição de Cristo. Porém, isso é questionável. O tipo de “visão” que Pedro, os doze e as mais de quinhentas testemunhas tiveram não é realmente importante como base para crença na ressurreição destes homens? Como tantas testemunhas puderam ser unânimes quanto ao tipo de visão que as convenceram do fato? Como puderam ser capazes de confirmar a mesma visão, já que Paulo os evoca em 1 Cor. 15 para a confirmação do evento? A teoria da “visão” defendida por Kümmel traz problemas que ele nem mesmo tenta explicar.